• Elle

Um Gol de bunda feio. Mas ainda assim um gol.


Enquanto esperava o resultado da seleção para trabalhar na Disney, pesquisei sobre coisas que seriam relevantes para colocar no currículo. Fiz algumas ilustrações como freelancer e procurei concursos. Naquela época, o MIS (Museu da imagem e do som de SP) estava promovendo um concurso voltado a sua futura exposição ''O Mundo De Tim Burton''. Existiam dois prêmios: as cinco melhores ilustrações e os cinco melhores vídeos. Os vencedores ganhariam a honra de conhecer a exposição pouco antes da abertura e tirariam uma foto em grupo com o diretor homenageado. Dentre esses cinco, um ganharia o maior prêmio que era... Sei lá, um boneco? Depois de ler as regras cheguei na parte importante, prazo. HAHAhahahahahaha erh, como podem imaginar, eu sempre estou atrasada para tudo. Isso não seria diferente, né? Faltava uma semana para o prazo terminar. ótimo, só faço as coisas sob pressão mesmo...

Precisava fazer algo que economizasse tempo, nada trabalhoso mas bem feito. Foi o que fiz? Mais uma vez, claro que não. Faltando uma semana para o prazo, queria fazer um stop motion. Obviamente não tinha material o suficiente para fazer bonecos ou qualquer coisa minimamente parecida. Eu tinha papel. Papel e uma tela de anotações branca, tinha que servir. Para compor mais o ''clima'' Burton, escrevi um pequeno poema e música de fundo para o vídeo. Minha voz definitivamente não parecia do Vincent Price narrando qualquer coisa como esse vídeo do Tim. Minha voz estava mais para... Vincent Price com 9 anos após ingerir gás hélio. Um amigo me ajudou, emprestando a voz e assim, pude me casar com o príncipe Éric, minto, e assim terminei o vídeo para o concurso.

Ok. Agora eu estava esperando duas coisas: o resultado da entrevista da Disney e do concurso. E com isso, termino meu texto...

Mentira.

Eu tava muito anciosa, diria que foi o pico de ansiedade da minha jovem vida. O pico aaaaaté aquele dia rs. Por conta disso, tive que voltar às sessões na psicóloga, mas isso é outro assunto mais pra frente (especificamente dia 10 de dezembro). É um período meio cinza da minha vida. Olhando para trás, o segundo ano do ensino médio (aquele que eu ignorava e ficava desenhando/dormindo e pasme, fazendo um curso de GAMING DESIIIIIIIGNNNNN) é meio turvo pra mim, só lembro dessas coisas relacionadas ao - projeto Disney - Acho que eu tava naquela época de conhecimento pessoal, religioso e tudo o mais. Devem ser as drogas. Nunca usei. Você não leu isso.

Continuando, quando chegou finalmente o dia do resultado do concurso, entrei no site e... BAM, meu nome estava lá:

Isabelle blablabla bla blabla

(é gente, esse é meu nome).

Eu acho que fiquei muito feliz. É estranho, depois que a gente alcança um objetivo, aquilo se torna pequeno, como se tivesse sido até sua obrigação alcançar. Tenho medo que isso seja o caso da Disney algum dia. E se acontecesse, o que seria o próximo objetivo? Bom, isso é um problema para a Elle do futuro. Atualmente eu tinha que comprar minhas passagens para São Paulo e sondar um lugar para ficar. Mais tarde, o MIS enviou um e-mail dizendo que eu também estava convidada para a festa da pré estréia. Seja lá o que isso fosse, também tinha convites para convidados. Levei minha progenitora e pegamos um ônibus até SP e de lá, fui até a casa de uma tia que estava viajando na época. Ao chegar na tal festa do museu, era algo como se estivéssemos em um filme do Tim Burton. As comidas eram temáticas e os garçons estavam de fantasia.

O único detalhe estranho era a galera convidada mesmo. Além de conhecer ninguém, claramente não eram da mesma classe social (tirando alguns vencedores do concurso), penso até que falavam outra língua. Eu, que já nunca fui social, claramente fiquei deslocada e observando o Tim que hora ou outra aparecia mas já era atacado pelos convidados. Pelo menos os drinks estavam do cú da foca.

No dia seguinte, acordei bem cedo e botei minha melhor roupa para ver o mestre. Ao chegar lá, uma recepcionista me informou que nenhum horário estava definido, falou para eu adentrar na exposição para passar o tempo. Quando tudo estivesse certo, alguém iria avisar. Muito que bem, fiquei horas dentro da exposição, poderia ficar dias se tivesse comida. Subi e desci um escorregador lá dentro trocentas vezes. Tudo o que eu preciso: desenhos e um escorrega para sobreviver. Depois de sugar tudo o que eu poderia de referências lá dentro, fui comer no próprio museu. De onde comia, um vidro separava a exposição então dava para ver as pessoas lá dentro se organizando para alguma coisa. Fui até lá mas as portas estavam trancadas.

Era uma parede de fora a fora de vidro e uma porta também de vidro. Fazia sinais de que eu precisava falar com a pessoa lá dentro mas as pessoas me ignoravam achando que eu era alguma fã histérica das quais começavam a se aglomerar aos montes. Com as bochechas esmagadas no vidro e de roupas pretas(eu sei que vocês gostam do cara mas ser estranho não é vestir roupa preta no calor, a escuridão de verdade precisa vir de dentro), alguns fãs e ''famosos'' se aglomeravam e gritavam para ver o Tim. Um segurança começou a se aproximar e eu pensei: É a minha chance. Pedi licença à uma ''famosa'' já que gostaria de falar com ele. Além de não me dar licença e cagar para minha explicação, quando o segurança foi atender a multidão, ela se prontificou como ''a negociadora'' e disse para o segurança que era um abuso não deixar ela entrar e bla bla bla... Ojeriza dessa galera. Fiquei mais ou menos uma hora plantada ali tentando falar com alguém quando o próprio Tim Burton passa e dá tchauzinhos de adeus. Adeus? Que?

Minha mãe era o Abu.

Mais meia hora se passou quando a multidão foi embora e as portas do museu se abriram. Corri para dentro já sabendo o que perdi: a foto em grupo e exibição dos curtas junto do Tim. Típico na minha vida. Expliquei toda a situação para a atendente que simplesmente achou que eu tinha chegado atrasado. Um nó começou a se juntar na minha garganta, daqueles que se você discutir chora. Eu ainda era juvenil e não tinha me preparado psicologicamente. Para minha sorte, levei minha progenitora e me surpreendi. Ela nunca foi de elogiar minhas façanhas, na verdade, sempre foi uma crítica bem ferrenha. As pessoas costumam falar que elogio de mãe não conta mas a da minha contava já que eram bem escassos. Ela sempre foi bem contra eu seguir esse caminho de arte desde minha adolescência e, foi o primeiro momento na minha vida que demonstrou ter orgulho de mim e me apoiar nessa maluquice toda. Quando viu que eu estava prestes a aceitar a situação, explicou de novo a situação para a funcionária. E do nada, a funcionária lembrou de ter me mandado para dentro da exposição e ter esquecido que eu existia. No entanto, em contrapartida, pediu meu nome, olhou em uma lista e disse: você não deveria se importar, foi algo bem rápido, todo mundo riu, alguns fizeram perguntas e além do mais... Você nem foi ganhadora do boneco que ele deu.

Me segura mamãe que eu vou dar nela

Nesse momento, o curador da exposição notou a prepotência do cavalo e interviu. Ouviu a história e entendeu o acontecido. Pensou em uma maneira de consertar aquilo. ''Amanhã terá uma sessão de autógrafos para aqueles que compraram o livro da exposição em uma pré venda (ou algo do tipo). Você poderá chegar e entrar um pouco antes dessas pessoas para conversar com ele.''

E assim foi, fiquei mais um dia em SP. Já não estava tão animada, minha roupa já era a que eu usava todos os dias (short e camisa de botão do Agustinho Carrara). Cheguei no museu e a fila para o autógrafo dava voltas. As primeiras pessoas por acaso ou não, eram ''influencers'' ''famosos'' e meros mortais que não dormiram para ficar lá na fila. O curador me chamou em um canto e fez algo que eu levei para a vida: comer quieto para comer duas vezes, Explico: Eu merecia ver o Tim e conversar com ele depois de toda a sofrência que tive. Mesmo assim, ele me pediu para não falar com ninguém por ali e ir por trás do museu de forma que ninguém na fila me visse ''furando'' e fazendo coisas que eles não poderiam fazer (ex: conversar um tempo, abraçar, tirar fotos com minha própria câmera).

Não sejam meninas amostradas, a vida não precisa ser stories do instagram

Anjos cantaram um couro de aleluia. Conheci o Tim, cheirei ele (sim é cheiroso) e conversamos. Falamos sobre meu vídeo, sobre a vida, o universo e tudo o mais rs. Falei sobre meu sonho e ele contou um pouco sobre seus estudos na CalArts que abriram as portas para a Disney. Mesmo tendo abandonado os estudos lá, lembrava dos tempos com saudosismo enquanto foleava meu sketchbook. Achava que ele estava delirante, tadinho. Estudar fora? Eu não tinha fundos nem condições mentais para aquilo. Mas principalmente fundos já que é uma das instituições de artes mais caras e difíceis de entrar.

Louco...

Louco? Ele me olhava como se eu fosse a louca. Estaria ele acreditando no meu potencial? Naaaaaah... Foi susto demais minha mãe ter acreditado nisso ontem, é gente demais acreditando no meu futuro pra uma só semana. Ele assinou meu sketchbook :

''para dar sorte''-disse

E fui embora.

#SejaDisney #disney4

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© 2017 Elle Oliver

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