Chaaarlie


Não posso contar o início da vida do Charlie ~eu não estava lá~ sei que foi em algum lugar do Vietnã. Mas posso contar o que aconteceu depois que o encontrei.

E láaa vamos nóoos...

Eu tava indo comprar mais spray pra graffitar. Comecei tinha um mês aproximadamente. Minha cabeça - e pulmão - estavam muito ocupados com pensamentos que giravam em torno de vandalismo, chutar uns trouxa, comer uns cu e pá. Em uma loja exatamente em cima da graffishop, funcionava um brechó infantil. Mesmo eu vivendo por ali, nuuunca tinha reparado. Na verdade só reparei que era um brechó quando vi o Charlie sentado de costas pra vitrine. Minto, achei que fosse uma loja infantil. Só reparei meeesmo quando adentrei o recinto e senti um cheiro engraçado de roupa guardada com sabonete Johnson's Baby hora do sono. Não tenho muito o que dizer depois disso, eu o levei para casa e ai tudo começou.

Charlie se juntou ao crime

Aproximadamente uma vez por ano costumo ir em uma viagem enogastronômica com meus tios. Eu sei, estranho. Na viagem daquele ano, resolvi levar o Charlie já que ele não tinha vivido muitas emoções na vida dele -dava pra ver isso já que ele era muito branco e felpudo-. Pra minha surpresa, conforme ia visitando os lugares, estranhos começaram a se aproximar de mim por conta do Charlie. Caro leitor, Charlie é uma mochila de unicórnio e eu não tinha idéia de que o mundo tinha uma tara com isso. E olha que foi beeem antes dessa moda toda de unicórnios, isso foi na época que eles ainda eram respeitados como criaturas místicas que sequestram virgens e matam pessoas com o chifre.

O tempo passou, viajei bastante e Charlie também. Todos que o notavam queriam fotos. Às vezes me paravam para pedir, mas outras, ficavam tentando tirar como um paparazzi amador e era bem constrangedor. Quando não eram fotos, as pessoas esfregavam o seu chifre e faziam um pedido. Sim, algumas pediam para esfregar mas outras simplesmente esfregavam, como se fosse normal você estar na rua, ficar bem pertinho das costas de alguém e dar uma esfregada nela.

Eu não conhecia essa pessoa, foi no mercado do Bolhão no Porto em Portugal. Me pegou pelo braço, agachou as calças e começou a gritar. Ela agachou um pouco além da conta inclusive. Eu não tava preparada. Enfim, ela começou a falar do amor por unicórnios e tiramos essa foto depois da esfregação de chifre típica. Não sei o que ela pediu mas eu ganhei um creme facial da barraca dela.

Essa viagem foi bem sofrida pro Charlie. Ele ficou fedendo como mil mendigos da central do Brasil após um dia de 40graus. Uma das noites, depois de sair com um colega e beber um pouco, coloquei Charlie do lado de fora da janela do hotel, que ficava na mesma altura que telhados vizinhos. Enquanto dormia, senti umas coisas felpudas no rosto e quando acordei e fui pegar o Charlie pra ver se o futum de corpos decompostos havia passado, ele estava na metade do telhado vizinho, cercado por uma gangue de gatos. Pelo menos aquilo aliviou o cheiro um pouco.

Já vivemos muitos momentos felizes e tristes. Badumtss

Não é a toa que ele fica sujo e fedendo. Sempre que chego de uma viagem, ele vai tomar banho e faço um restauro no chifre pois ele chega a perder a cor com toda a esfregação. Charlie não tem limites. Ele é tipo aquela propaganda pra servir o exército. Falo isso porque ele é bastante ativo mesmo. Cai no chão, levanta, rema em lagoas, cai na lagoa, anda em brinquedos radicais, eventualmente prova comidas e principalmente: tem que lidar com crianças. Essa com certeza é a parte mais difícil. EU NÃO SEI FAZER ISSO.

EU NÃO GOSTO DE FAZER ISSO. Quando eu era criança já não gostava delas. Já tive que lidar com pessoas querendo comprar o Charlie em uma feira de antiguidades, pessoas tentando roubar o Charlie, mas crianças... Elas sempre ficam me encarando com aqueles olhos de criança com aquela meleca descendo naquele nariz de criança e aquelas mãos pequenininhas e sujas de criança. Depois de muito desprendimento emocional e pensamentos felizes, eu entrego o Charlie para a criança e falo uma ou duas coisas daquelas que se fala pra criança. Algumas riem e me agarram junto. Algumas gritam. Algumas não querem devolver o Charlie. O que é muito difícil já que a maioria delas não falam a mesma língua que eu, então vejo os pais nervosos e com vergonha negociando com a criança.

Charlie tem várias histórias. Parando pra pensar, todas elas são de como ele me ajudou ao longo do tempo a ser mais sociável. É por isso que ele é tão especial.


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© 2017 Elle Oliver

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