O dia que um biscoito (quase) me bigodou


Começo claro, pelo momento cultural e informativo do post que é sobre essa gíria maravilhosa; bigodar. Ela significa “dar problema”, “morrer”. Gosto de acreditar que veio da expressão em inglês “be gone”. Se você tem alguma teoria, por favor, comente.

Voltando aos fatos, era um dia perfeito, o sol não estava brilhando e meu vizinho não estava escutando música eletrônica alta às 5h da manhã. Na parte da noite, naquela fome de um morador de rua, três da tarde na central do Brasil, fui à um restaurante relativamente conhecido chamado casa do alemão.

Agora uma breve explicação sobre a tal casa do alemão: meu tio, alemão, não acha nada de alemão nela. Mas alguém liga? Não! Desde os tempos mais primórdios ela oferece croquetes e doces à peregrinos que vão em direção à serra do Rio de Janeiro. Anos depois, abriu uma franquia pra população que vai em direção à região dos lagos e mais recentemente, na Barra da Tijuca.

Ela virou algo como o Graal das paradas que vende comida mais confiável e gostosa. Passar direto da entrada da casa do alemão significava que antes mesmo de chegar ao destino da sua viagem, ela já foi desperdiçada. Nada poderia dar certo sem antes uma rodada de croquetes e doces.

Então, o que seria melhor pra saciar minha fome já que eu estava perto de uma de suas franquias, não é mesmo? Não enrolei muito, pedi minha meia dúzia de croquetes, comi, e pedi algumas coisas pra viagem; dois sanduíches para meus pais, mais alguns croquetes e um saco de biscoitos sortidos amanteigados. Clássico.

Lá pela madrugada, todos os quitutes que levei para casa já estavam devidamente nos sistemas digestivos dos meus progenitores. À Procura de algum programa extremamente ruim na tv, senti fome e lembrei do saco de meio quilo de pura alegria me esperando, um saco de biscoitos fechadinho, novinho, com uma variedade ótima para que a gente não enjoe no terceiro. Quando examinei o saco mais de perto, vi um biscoito quebrado ali dentro, pobre alma, mas gostoso mesmo assim, pensei. Peguei uma mão farta deles e coloquei em um papel como se fizesse uma trouxinha para me acompanhar durante a programação de filmes horríveis da madrugada. Assim, reparei que o pobre biscoito quebrado veio junto e o examinei mais de perto. O biscoito não estava simplesmente quebrado, ele foi mordido por alguém. Assim como aprendi em algum programa de assassinato na madrugada, examinei a mordida, definitivamente eram dentes. Dentes humanos. Curiosamente eu preferiria dentes de roedores já que entenderia que os ratos não tem noção que comer um pedaço do biscoito dos outros e colocar o resto no saco é extremamente... Rude.

Foi aí que senti um peso nos ombros. Dois pombos pousaram, um em cada ombro. Um era claramente - da pesada - como diria o locutor da sessão da tarde. Ele tinha umas tatuagens, cicatrizes, tapa olho, chifres, um tridente e, claro, não tinha uma pata (provável acidente com linha de pipa -SE CONCIENTIZE, NÃO UTILIZE CEROL!)

Já o outro pombo, era branco com olhos de anime, uma auréola que parecia um cebolitos e patas gordinhas e peludas.

Eles me encararam e naquele momento, senti que era um momento emblemático na minha vida. Ali algo iria mudar para sempre (sim, meu remédio psiquiátrico rs)

O pombo claramente enviado por espíritos obsessores dizia “pruuuuu uuh pruu prrrrrru”

Vou traduzir já que aqui tem cultura “coma esse biscoito não lhe fará mal, eu como biscoito fofura do chão da Lapa e estou bem”

Já o pombo pompom (sei lá ele tinha cara de anjo pompom) dizia “uuuuh pru prrrrrru pruuuupru!” Que pôde-se entender por “não coma nenhum biscoito, eles podem estar contaminados. Que tal umas sementes de linhaça?”

Vocês acham que eu escutei qual pombo? Já que claramente linhaça nem alimento é.

Ou eu escutei o pombo do tinhoso? Mas claramente fofura vem do inferno já que pega fogo igual à isopor.

Bom, eram muitas questões passando na minha cabeça que não podiam ser processadas já que meu estômago roncava. Assim, espantei os pombos antes que cagassem no meu ombro e sabiamente separei o biscoito mordido dos demais. Assim, só comeria os “normais”. Fácil. É isso.

Estacionei devidamente minha traseira no sofá, coloquei no pior programa possível mas ainda sim digno de ser assistido enquanto comia. No segundo biscoito ou terceiro, já senti que algo não ia bem. Tive a ótima ideia de comer mais um pra ver se... era aquilo mesmo. Eu senti ele descer e no fim do esôfago, fazer uma caveira em formato líquido com os ácidos do meu estômago e tudo o que há de bom :) com um sonoro “duuuu maaaaaaall”

Rapidamente recorri à um remédio de enjoo, e fui assistir à algum programa do YouTube deitada já em berço esplêndido. Aquela sensação de “eu não deveria ter comido aquilo” se misturou no meu estômago com alguma substância que veio no biscoito batizado e me fazia piorar à cada segundo passando pelo primeiro estágio da vergonha: chamar meu pai.

“Pai, acho que não to bem não, já tomei o remédio”

E ele como um bom médico ainda meio dormindo e provavelmente sonhando que atendia alguém, disse a melhor coisa que poderia ser dita. Uma coisa que resolveu a situação:

Vai melhorar filha, dorme.

Aquilo foi tão maravilhoso de ouvir que na mesma hora piorei e fui para o que chamo de terceiro estágio da vergonha (nesse dia conheci tantos estágios novos que futuramente terei que abaixar a pontuação dos que eu já conhecia).

O terceiro estágio consiste em jogar água na boca e cheirar limão. Sim. É isso.

Já adianto que o efeito foi nulo e já pulei para o próximo estágio: ajoelhar no vaso e me preparar pro creminho gostoso dos teletubbies.

Se você é fraco para escatologias e afins, peço para que pare de ler agora. Eu gosto de descrever as coisas como são e pra piorar, não tenho mais pretenção de ser Miss ou ter um par romântico me deixando livre pra me humilhar da forma que eu quiser.

Continuando, assim que o primeiro jato saiu, imitando o vômito de todo desenho bom que se preze dos anos 90, meu pai escutou e notou que eu não estava pra brincadeira.

Eu sei que meu pai não é muito fã de vômito, vocês devem estar se perguntando “e quem é elle?” Bom, existem pessoas mais tolerantes, pergunta pro seu amigo que te segurou aquela vez na balada depois de um cantina da serra quente e vodka.

Então, cada jato alegre que eu dava, ao mesmo tempo me preocupava com meu pai já que visivelmente ele não sustentava aquela posição muito bem.

Depois de alguns litros deixados para trás, veio a bonanza, escovei meus dentinhos e deitei achando que aquilo havia acabado e eu saí vitoriosa de ter expulsado algum intruso de mim. Imaginando que meu ozzy e drix estavam orgulhosos do trabalho feito e descansando nas bahamas (gosto de imaginar que as Bahamas no meu corpo fica em algum lugar da batata da perna).

Queridos, nenhuma desgraça é pouca para quem não escuta a dica dos pombos da sabedoria. Pouco tempo depois, já senti aquela vontade de expulsar o mal que habitava em mim. Assim, desci da cama e... ... “meucaboclocaboclinho!!” o movimento de descer da cama adiantou algo que eu definitivamente não esperava. Sim, lá na parte de trás, algo escorregou. Assim, fui rapidamente para o estado... quatro? Não vou nem mais contar os estados de vergonha já que terá mais que evolução Saiyadin. Sentei no troninho já gritando BALDE BALDE tal qual Quasímodo grita SANTUÁRIO em O Corcunda de Notre Dame.

E lá, foi como se eu tivesse tomado algo pra burlar o sistema de pesagem e retirar todo líquido do meu corpo de uma vez só. Apelei e chamei quem me botou no mundo como último recurso. As mães não tem nojo dessas coisas né. Sim, mas aquilo não era “uma dessas coisas” aquilo já tinha outro nome.

Ela acordou meio sem entender mas, algo lá no fundo do seu sistema de mãe que eu sei que ela tem, mandou começar a seguir o caminho da minha voz já baixa. Quando me encontrou, aparentemente meu nome era Jesus. Jesus Jesus.

E ao invés de ser a pessoa sã da casa, me deu uma bronca por aparentemente não estar no mínimo cantando todo o cd do padre Marcelo.

“Mãe...” respondi. “Eu já chamei São Francisco, já chamei os caboclo, ali tá Obaluaiê... Chamei meus antepassados, anjo da guarda e espíritos protetores. Não cabe mais ninguém nesse banheiro.”

O bom de banheiro pequeno é que dá pra se apoiar na parede da frente ao mesmo tempo que você tá no vaso e por algum milagre da física (que diz que dois corpos não conseguem ficar no mesmo lugar ao mesmo tempo) lá estava eu, o balde, o vaso e todos os espíritos. Um conjunto, lindo, poético, orquestrados, somos um. *musica do rei leão ao fundo*

Minha mãe ainda não satisfeita, grita “você tem que chamar alto! Não na sua cabeça!”

Em um dia normal, não me considero uma pessoa que fala alto, raramente grito. Ali não era um dia normal, tava liberado. Quando fui chamar alto, minha voz já não saía e eu comecei a não sentir minhas pernas. Meu pai, desde o momento lá atrás, onde eu afrouxei a caçamba do caminhão sem querer, havia ido à farmácia comprar alguma injeção e remédios mais fortes.

Os minutos passavam e eu pensava no biscoito, nos pombos e em alguém chamado Daniel. Não conheço um Daniel, eu só tava divagando aleatoriamente pronta pra desmaiar no balde, no vaso, na minha mãe e nos Santos.

Acho que disse algumas vezes “hospital” E, vendo que meu pai estava demorando demais, minha mãe ligou para ele abortar a missão e vir pra casa pois eu teria que ir ao hospital.

Mesmo ali, completamente descompensada eu ainda pensava “caramba se eu não falasse hospital, morreria aqui, de cueca e casaco, por conta de um biscoito. Isso seria piada pra geral lá no mundo dos mortos igual ao filme Coco”

Minutos depois, meu pai chega, orgulhoso de seus sacos fartos da farmácia. Falando algo sobre ter comprado álcool, água oxigenada e aquele negócio lá que nunca mais teve...

Um adendo, meu pai ama farmácias e não pode entrar em uma sem comprar algo. O mesmo fenômeno acontece comigo com papelarias, farmácias e casas de cabelo.

Continuando, aparentemente ele não tinha entendido a ligação da minha mãe e não sabia que eu continuava definhando e parecendo o general Grievous de Star Wars.

Assim, eu reuni todas as forças que eu não tinha e as pernas q eu nem mais sentia mais para conseguir ficar (mais ou menos) de pé e andar para o carro tal qual uma minhoca. Descalça, com minha cuequinha e casaco, pensava em como os porteiros estavam achando aquela cena bizarra pelas câmeras do condomínio. Meus pais queriam me cobrir ou colocar um sapato em mim. Eu só queria desesperadamente conhecer essa instituição que havia conseguido evitar por 25 anos: o hospital.

Chegando lá, tremendo, provavelmente cagada e descalça, retiraram meu sangue e só depois disso, injetaram remédio e soro no meu corpinho de Olaf derretido.

Acordei algum tempo depois tremendo e sem roupa. Sempre que via alguém no hospital, era uma bundinha só de fora. Será se eu era especial? Será se era um teste pra eu evoluir meu espírito e transcender a barreira da vergonha quanto ficar nua? O biscoito me levou para um caminho obscuro e inimaginável.

Meus pensamentos simplesmente pararam e minha mente foi para meu lugar seguro quando uma enfermeira começou a me dar banho no leito.

Pelo menos eu já não estava mais morrendo. Ok, talvez estivesse mas era de vergonha.

Nada poderia piorar à partir dali.

Ela colocou uma fralda em mim.

Nada poderia piorar à partir dali.

Grudaram algumas coisas no meu peito ainda nu, devo lembrar, pra fazerem um exame.

Pelada, de fralda, em um hospital.

Só se fica assim quando nasce, eu estava sendo premiada por revisitar essa experiência. Dois litros de soro depois, eu ainda não tinha vontade de ir ao banheiro já que meu interior estava mais seco que a boca do Leo Dias.

Logo, não conseguia fazer o exame de urina. Assim, prontamente a enfermeira chegou perto de mim como um anjo vindo dos céus e disse “se você não fizer, terão que passar uma sonda”.

A palavra sonda liberou algo dentro de mim que me tornei A Fontana de Trevi e bem, primeiro exame completo.

Muitos exames depois, ver minha mãe chorando e me fazer ter certeza que na verdade o biscoito já havia me matado e eu estava perdida ali no limbo, o resultado do meu exame de sangue chega.

Ao que parece eu estava morrendo.

Mas calma leitor, todos nós estamos. É mais do que isso, colheram meu sangue antes mesmo de me hidratarem. Isso causou o resultado louco e consequentemente o hospital queria me internar. Ninguém mais examina ninguém, eu posso estar muito enganada mas não lembro do médico me encostar. Por aquele resultado errado simplesmente eu teria que ficar lá por um tempo. Bom, vocês devem conhecer como funcionam hospitais privados e planos de saúde.

Pra resumir, de fralda, uma camisa nova e um chinelo trazidos de casa, meu pai em todo o seu direito me raptou e me levou pra casa.

A roupa que eu tinha chegado lá, já tinha ido prontamente para o incinerador e aparentemente não ganhei nenhum pirulito.

Um lado meu queria continuar no hospital, me parecia seguro, e pra alguém com meu nível de preguiça, dormir e receber coisas pela veia não me parecia tão ruim.

Outro lado meu, (ainda bem que os pombos não apareceram no meu ombro nessa hora) queria ir pra casa porque algo ali dizia que meu tratamento estava no meu sofá com meus gatos.

Esse lado estava correto, cheguei em casa 3kg mais magra, meus gatos deitaram em mim e dormi. Acordei com a visita de vários parentes e mensagens.

Me senti extremamente querida e quente.

Não é uma coisa que eu sinto normalmente por problemas de depressão *mini violinos tocam ao fundo*

Mas minha família em peso, até pessoas mais distantes se aproximaram e estavam preocupadas.

No final, o biscoito sempre tem razão e agora é mais uma história engraçada pra contar. Mesmo a parte da fralda que confesso, era um pouco confortável; como se uma nuvem estivesse cobrindo minhas partes íntimas.

Coma biscoito. É radical.


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© 2017 Elle Oliver

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